{"id":111694,"date":"2022-01-29T05:24:24","date_gmt":"2022-01-29T08:24:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=111694"},"modified":"2022-01-29T05:24:24","modified_gmt":"2022-01-29T08:24:24","slug":"erudito-e-um-sujeito-que-tem-mais-cultura-do-que-cabe-nele","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=111694","title":{"rendered":"Erudito \u00e9 um sujeito que tem mais cultura do que cabe nele"},"content":{"rendered":"<div>\n<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-111697\" src=\"http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo.jpg\" alt=\"\" width=\"831\" height=\"154\" srcset=\"http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo.jpg 831w, http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo-300x56.jpg 300w, http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo-695x129.jpg 695w, http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo-768x142.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 831px) 100vw, 831px\" \/><\/h2>\n<h2 class=\"subtitulo\" style=\"text-align: center;\">Coment\u00e1rio sobre um famigerado apelido<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"pos-texto\">\n<figure id=\"attachment_111696\" aria-describedby=\"caption-attachment-111696\" style=\"width: 514px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-111696 size-full\" src=\"http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Pedro-Alexandre-Massinha.jpg\" alt=\"\" width=\"514\" height=\"344\" srcset=\"http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Pedro-Alexandre-Massinha.jpg 514w, http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Pedro-Alexandre-Massinha-300x200.jpg 300w, http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Pedro-Alexandre-Massinha-414x276.jpg 414w, http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Pedro-Alexandre-Massinha-130x86.jpg 130w, http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Pedro-Alexandre-Massinha-187x124.jpg 187w\" sizes=\"(max-width: 514px) 100vw, 514px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-111696\" class=\"wp-caption-text\">Massinha, o autor da alcunha<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"pos-texto\">Dizem n\u00e3o sem raz\u00e3o que apelidos s\u00e3o assim: quanto menos se gosta, mais eles grudam e grudam mais que visgo de jaca! E foi Pedro Alexandre Jardim, o Massinha, quem me p\u00f4s o apelido de que menos gosto, sobretudo porque me julgo indigno do significado que comporta. Vou contar a hist\u00f3ria. Foi em uma apresenta\u00e7\u00e3o ao lado do maestro e violoncelista Jo\u00e3o Omar e do violonista e violeiro Petr\u00f4nio Joabe que surgiu o famigerado apelido de \u201co erudito\u201d.<\/p>\n<div class=\"texto\">\n<p>\u00c9 que, em certa oportunidade, Pedro Alexandre Massinha me ouviu cantar uma das \u201cCantigas de Santa Maria\u201d \u2014 composi\u00e7\u00e3o em galego-portugu\u00eas do s\u00e9culo XIII, ora atribu\u00edda ao rei Afonso X, o S\u00e1bio, ora atribu\u00edda ao poeta e trovador galego Airas Nunes \u2014 e, no dia seguinte, na r\u00e1dio, Massinha anunciou: \u201cVem a\u00ed Elton Becker, o erudito\u201d.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, ambos est\u00e1vamos na R\u00e1dio Band FM; Pedro Alexandre apresentava o seu tradicional programa \u201cAgito Geral\u201d e eu o sucedia no hor\u00e1rio. Dali em diante, Pedro n\u00e3o parou jamais de me anunciar daquele modo e foi o bastante para este apelido \u201ccolar\u201d e \u201ccolar\u201d com grude para minha lamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ocorre que a linguagem erudita, complicada e dif\u00edcil, quase sempre \u00e9 utilizada como instrumento de intimida\u00e7\u00e3o, principalmente por aquelas pessoas que misturam desordenadamente autoridade com autoritarismo. Por isto, o apelido sempre me intimidou porque h\u00e1 nele uma impertin\u00eancia subjacente, afinal o erudito \u00e9 um sujeito que tem mais cultura do que cabe nele \u2014 j\u00e1 dizia Mill\u00f4r Fernandes.<\/p>\n<p>Logo, h\u00e1 mais distin\u00e7\u00e3o no apelido do que possa sustentar a minha v\u00e3 cultura. Pois n\u00e3o sabem as pessoas que, em minha forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nada de erudi\u00e7\u00e3o, palavra que quer dizer instru\u00e7\u00e3o vasta e variada de quem adquiriu enorme saber, sobretudo, pela leitura. E, Deus meu, quem h\u00e1 de imaginar um erudito que come\u00e7ou na leitura com os romances de amor a\u00e7ucarado de Madame Delly?<\/p>\n<p>Sim, os primeiros livros que li eram aqueles \u201cexclusivos para mulheres\u201d e vinham representados pelas v\u00e1rias cole\u00e7\u00f5es de Sabrina, Bianca e J\u00falia. E, naquela d\u00e9cada de 1980, estes \u201clivros cor-de-rosa\u201d ou \u201cromances de banca\u201d, como eram chamados, me chegavam pelas m\u00e3os de minhas tias paternas e eram, em suma, reedi\u00e7\u00f5es das publica\u00e7\u00f5es da famosa Biblioteca das Mo\u00e7as da Companhia Editora Nacional e que fizeram grande sucesso durante o per\u00edodo de 1920 a 1960.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, em 1930, a Companhia Editora Nacional, que fora dirigida por Monteiro Lobato, chegou \u00e0 tiragem de mais de 900 mil exemplares mensais! Por\u00e9m Madame Delly, na verdade, era o pseud\u00f4nimo de um casal de irm\u00e3os escritores: Fr\u00e9d\u00e9ric Henri e Jeanne Marie de la Rosi\u00e9re e ambos desenvolveram modelos infal\u00edveis de que a l\u00f3gica do amor rom\u00e2ntico se d\u00e1 em clima de total encantamento e fantasia e cuja recompensa \u00e9 a conquista da felicidade a dois.<\/p>\n<p>Na sua maioria, os personagens de Madame Delly eram maravilhosos, fidalgos e garbosos, felizes e\u2026 loiros! As narrativas eram repletas de adjetivos abundantes e tamb\u00e9m eram permeadas de duques e duquesas, condes e condessas, nobres her\u00f3is e hero\u00ednas ricos ou enriquecidos por algum casamento fant\u00e1stico. E quase todos possu\u00edam o cora\u00e7\u00e3o puro, transparente, l\u00edmpido como mais puro cristal e moravam em algum castelo suntuoso com imponente escadaria de pedra cinzenta guarnecida por um espesso tapete persa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto, as mulheres eram castas e santas, ostentavam a pele nacarada, a tez aveludada, o andar gracioso, os cabelos sedosos e macios. Elas eram sempre virtuosas, retas e tementes, com seus seios arfantes, os fr\u00eamitos intensos, os bra\u00e7os vigorosos, o porte soberbo e os mais dedicados fervores cat\u00f3licos. J\u00e1 os homens eram vigorosos e atl\u00e9ticos, ofereciam conforto e arrebato de amor e cuidado. Curiosamente, quase todos os homens de Madame Delly sabiam dan\u00e7ar muit\u00edssimo bem.<\/p>\n<p>Agora imagine voc\u00ea, leitor, o impacto que o primeiro \u201cromance de verdade\u201d me causou e o qual calhou de ser \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d, de Machado de Assis! Eu nem tinha vocabul\u00e1rio para tanto! Nossos voc\u00e1bulos eram de uma paup\u00e9rie t\u00e3o sofr\u00edvel que um dia est\u00e1vamos de algazarra na sala de aula e a nossa professora amea\u00e7ou: \u201cSe continuarem com essa bagun\u00e7a, mandarei suspender a merenda de voc\u00eas\u201d \u2013 e n\u00f3s explodimos em comemora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como se sabe, suspender \u00e9 interromper, fazer cessar. Por\u00e9m \u00e9ramos quase todos, em sua maioria, filhos e filhas de pedreiros e, numa constru\u00e7\u00e3o, suspender uma parede, por exemplo, \u00e9 cresc\u00ea-la. Da\u00ed a celebra\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Ademais das leituras, a m\u00fasica que eu ouvia na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia nada tinha de erudita, pois me chegava pelas ondas da R\u00e1dio Clube AM de Conquista e sob a etiqueta mais cafona e miquelina: Odair Jos\u00e9, Wando, Agnaldo Tim\u00f3teo, Waldick Soriano, Fernando Mendes, Paulo S\u00e9rgio, Almir Rog\u00e9rio (do \u201cFusc\u00e3o Preto\u201d) e mais alguma coisa de forr\u00f3 de duplo sentido com Genival Lacerda e Clemilda \u2014 aquela do \u201cSeu delegado prenda o Tadeu \/ Ele pegou a minha irm\u00e3 e&#8230; crau\u201d!<\/p>\n<p>Tanto assim que eu gostei demais dos livros \u201cEu n\u00e3o sou cachorro n\u00e3o\u201d, de Paulo Cesar de Ara\u00fajo, e \u201cHist\u00f3ria da m\u00fasica popular brasileira sem preconceitos\u201d, de autoria de Rodrigo Faour. Como nunca antes na historiografia da m\u00fasica popular, ambos souberam conceituar e localizar no repert\u00f3rio musical brasileiro a m\u00fasica cafona\/brega\/bagaceira das d\u00e9cadas de 1960-1970.<\/p>\n<p>Foi Paulo Cesar de Ara\u00fajo, diga-se a prop\u00f3sito, quem primeiro demonstrou a relev\u00e2ncia daqueles artistas esquecidos pela cr\u00edtica, mas adorados pelo povo, porque fizeram m\u00fasicas que falavam da vida e dos sentimentos dos brasileiros de uma forma que todos entendiam. Alguns at\u00e9 com temas pol\u00eamicos e que os fizeram enfrentar a Ditadura Militar e, pior, a tirania do alto e fino gosto.<\/p>\n<p>As can\u00e7\u00f5es \u201cEu Vou Tirar Voc\u00ea Desse Lugar\u201d, gravada em 1972 por um Odair Jos\u00e9 apaixonado por uma prostituta, e \u201cCadeira de Rodas\u201d, escrita em 1975 por Fernando Mendes para uma parapl\u00e9gica, foram esc\u00e2ndalos nacionais por serem consideradas de mau gosto, al\u00e9m de rid\u00edculas. Mesmo assim, esta \u00faltima vendeu mais de um milh\u00e3o de c\u00f3pias e, em 1978, Fernando Mendes recebeu o Pr\u00eamio Villa-Lobos (sic) de disco mais vendido do ano com a m\u00fasica \u201cVoc\u00ea N\u00e3o Me Ensinou a Te Esquecer\u201d.<\/p>\n<p>Esta composi\u00e7\u00e3o de Fernando Mendes e Jos\u00e9 Wilson seria regravada por Caetano Veloso em 2003, indicada ao Grammy Latino de Melhor Can\u00e7\u00e3o Brasileira e inclusa na trilha sonora do filme \u201cLisbela e o Prisioneiro\u201d, adapta\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a hom\u00f4nima de Osman Lins com dire\u00e7\u00e3o de Guel Arraes e produ\u00e7\u00e3o de Paula Lavigne.<\/p>\n<p>De mais a mais, na d\u00e9cada de 1990, quando eu trabalhava como operador de \u00e1udio na extinta R\u00e1dio Bandeirantes AM, eram os artistas cafonas os que mais toc\u00e1vamos na emissora. Foi por esta \u00e9poca tamb\u00e9m que conheci a m\u00fasica de Lupic\u00ednio Rodrigues e de Dilermando Reis, mais as vozes de Orlando Silva e de Francisco Petr\u00f4nio, de Dalva de Oliveira e de N\u00fabia Lafayette, os quais nunca deixei de escutar.<\/p>\n<p>Para mim, o samba-can\u00e7\u00e3o \u201cDevolvi\u201d, de Adelino Moreira na voz de N\u00fabia Lafayette, \u00e9 um dos melhores feitos da nossa m\u00fasica popular. Mas, por tudo isso, por todas essas refer\u00eancias, enfim, que o apelido me deixa vermelho ou corado, atrapalhado at\u00e9. Enrubescido. Porque me arde nas faces a vergonha de que me chamem pelo que n\u00e3o sou.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, dias desses, fiquei content\u00edssimo. Algu\u00e9m da minha fam\u00edlia me perguntou com irrita\u00e7\u00e3o: \u201cOh, Elton, por que \u00e9 que na r\u00e1dio trocam seu nome e te chamam de Eron Dilton?\u201d.<\/p>\n<p>Em Portugal, h\u00e1 uma express\u00e3o, \u201cbom povo\u201d, usada para falar sobre os momentos de eleva\u00e7\u00e3o, indigna\u00e7\u00e3o, embevecimento caseiro e arrojo metaf\u00edsico do povo. Eron Dilton n\u00e3o \u00e9 um desses momentos do bom povo? E n\u00e3o \u00e9 verdade que estes s\u00e3o mais maravilhosos do que a literatura de Madame Delly e menos convencionais que a m\u00fasica cafona? Podem n\u00e3o ser eruditos, mas nem por isto menos importantes.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coment\u00e1rio sobre um famigerado apelido Dizem n\u00e3o sem raz\u00e3o que apelidos s\u00e3o assim: quanto menos se gosta, mais eles grudam e grudam mais que visgo de jaca! E foi Pedro Alexandre Jardim, o Massinha, quem me p\u00f4s o apelido de que menos gosto, sobretudo porque me julgo indigno do significado que comporta. Vou contar a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":111696,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[29],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/111694"}],"collection":[{"href":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=111694"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/111694\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":111698,"href":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/111694\/revisions\/111698"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/111696"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=111694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=111694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=111694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}