{"id":114927,"date":"2022-04-17T21:49:32","date_gmt":"2022-04-18T00:49:32","guid":{"rendered":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=114927"},"modified":"2022-04-17T21:49:32","modified_gmt":"2022-04-18T00:49:32","slug":"aquele-abraco-mac-donald","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=114927","title":{"rendered":"Aquele abra\u00e7o, Mac Donald"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"subtitulo\" style=\"text-align: center;\">Hist\u00f3rias de um louco admir\u00e1vel (e seu capanga)<\/h3>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-111697\" src=\"http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo.jpg\" alt=\"\" width=\"831\" height=\"154\" srcset=\"http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo.jpg 831w, http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo-300x56.jpg 300w, http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo-695x129.jpg 695w, http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo-768x142.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 831px) 100vw, 831px\" \/><\/p>\n<figure style=\"width: 552px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.conquistadefato.com.br\/images\/noticias\/15248\/a7f44d77d3a3f6b2c85a05cc3f3ff365.jpeg\" alt=\"Mac Donald, um dos pioneiros no r\u00e1dio FM de Conquista\" width=\"552\" height=\"367\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Mac Donald, um dos pioneiros no r\u00e1dio FM de Conquista<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"texto\">\n<p>Em agosto de 1988, aos quatorze anos de idade, ingressei para trabalhar na R\u00e1dio Bandeirantes FM de Vit\u00f3ria da Conquista, a nossa ZYC 311 e FM 97,5 MHZ (hoje 99,1). E, como j\u00e1 mencionei em uma coluna anterior, eu, que n\u00e3o tinha r\u00e1dio FM em casa, quando conheci uma emissora de frequ\u00eancia modulada, foi pelo lado de dentro. Uma hist\u00f3ria que me remete a uma pilh\u00e9ria sobre um parente meu, l\u00e1 dos lados dos Gerais, que desmontou um r\u00e1dio para conhecer e conversar mais de perto com \u201cos homenzinhos\u201d que viviam e falavam l\u00e1 dentro do aparelho!<\/p>\n<p>Curiosamente, poucos meses depois, e ali mesmo na Bandeirantes, me deparei com um livro: \u201cTempo, vida, poesia: confiss\u00f5es no r\u00e1dio\u201d, de Carlos Drummond de Andrade. At\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o sabia, mas estava ali a consubstancia\u00e7\u00e3o das minhas (futuras) paix\u00f5es pelo r\u00e1dio, pelo jornalismo, pelo livro e pela literatura, principalmente pelas narrativas biogr\u00e1ficas e a poesia. Ainda me causa estranheza que este livro, publicado pela primeira vez em 1986, ainda seja t\u00e3o pouco estudado! O volume re\u00fane uma s\u00e9rie bem divertida de oito entrevistas concedidas pelo Poeta de Sete Faces \u00e0 amiga e jornalista Lya Cavalcanti, as quais foram veiculadas pela PRA-2, R\u00e1dio Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura, na d\u00e9cada de 1950.<\/p>\n<p>A deliciosa intimidade com que a s\u00e9rie de entrevistas se desenrola, como bem notou Elvia Bezerra, nos mostra que a rela\u00e7\u00e3o de Drummond com Lya vai al\u00e9m da de colegas de profiss\u00e3o. O t\u00edtulo do estudo de Elvia j\u00e1 nos sugere isto: \u201cA Louca Admir\u00e1vel e seu Capanga\u201d. No livro, estas conversa\u00e7\u00f5es s\u00e3o alegres mesmo. Leia-o, quando puder. Contudo, na primeira vez em que eu li \u201cTempo, vida, poesia\u201d, vi assomar no meu cora\u00e7\u00e3o uma daquelas sugest\u00f5es que s\u00f3 Drummond \u00e9 capaz. Ali, pelo Cap\u00edtulo V, o poeta afirma que o jornalismo \u00e9 uma escola de clareza da linguagem e que tal qualidade exige antes clareza de pensamento. Heureca!<\/p>\n<p>Para Drummond, o batente di\u00e1rio do jornalismo n\u00e3o atrapalha quem sinta a compuls\u00e3o de ser escritor. Pelo contr\u00e1rio, aperfei\u00e7oa! Porque proporciona o treino di\u00e1rio, pois o jornalismo n\u00e3o admite pregui\u00e7a, diz o poeta. E a pregui\u00e7a, prossegue Drummond, \u00e9 o mal maior do escritor entregue a si mesmo. Logo, o jornalismo n\u00e3o admite lentid\u00e3o porque n\u00e3o h\u00e1 pausas. Afinal, \u201co leitor n\u00e3o espera\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Uma disciplina que ainda estou longe de conseguir, em especial na regularidade de escritura desta coluna, n\u00e3o \u00e9 professor Elton Moreira Quadros?<\/p>\n<p>Interessante \u00e9 que, ao aproximar-me de Drummond, cheguei mais perto do jornalismo e do r\u00e1dio, evidente. E fui me tornando pr\u00f3ximo, e observador atento do trabalho de profissionais como Dilton Rocha (in memorian), Janyd Ramos, Mac Donald, Inamara M\u00e9lo e J\u00fanior Patente; pioneiros no jornalismo do r\u00e1dio FM de Conquista, logo nos primeiros anos da d\u00e9cada de 1980. Falando em pioneirismo, cabe destacar que foi Janyd Ramos quem se antecipou ou abriu caminhos para uma tem\u00e1tica radiof\u00f4nica feminista, antes mesmo que isto viesse a se tornar um movimento de amplia\u00e7\u00e3o dos direitos civis e pol\u00edticos da mulher, ou de luta para equipara\u00e7\u00e3o dos seus direitos aos do homem.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um dos exemplos de que programas como \u201cConquista Hoje\u201d e \u201cMicrofone Livre\u201d marcaram \u00e9poca no r\u00e1dio local. Oxal\u00e1, Deus queira, eu possa escrever uma hist\u00f3ria que os caiba. Um livro contando a hist\u00f3ria do r\u00e1dio de Conquista, quem sabe?<\/p>\n<p>Mas voltando a Drummond e \u00e0 similitude entre o jornalista e o literato, o poeta assevera que a literatura \u00e9 um fen\u00f4meno de imita\u00e7\u00e3o ou repeti\u00e7\u00e3o. O que faz lembrar, imediatamente, o espirituoso Abelardo Barbosa, o Chacrinha, autor da c\u00e9lebre frase: \u201cNa televis\u00e3o, nada se cria; tudo se copia\u201c. No r\u00e1dio, idem. E em Vit\u00f3ria da Conquista n\u00f3s temos, felizmente, um\u00a0<em>imitatore\u00a0<\/em>(no melhor sentido do termo) daquela gra\u00e7a e vivacidade do Velho Guerreiro: o radialista Mac Donald, outro \u201clouco\u201d admir\u00e1vel.<\/p>\n<p>Donaldo Miranda, para os familiares e amigos mais pr\u00f3ximos, primeiro adotou o nome de Donald e, mais tarde, Mac Donald, para sempre. Se o Chacrinha tinha l\u00e1 seus bord\u00f5es, como \u201ccheguei, baixei e saravei\u201d ou \u201cquem n\u00e3o se comunica se trumbica\u201d, Mac tamb\u00e9m criava e ainda cria os seus prov\u00e9rbios. Quem trabalha com ele conhece o famoso \u201cno r\u00e1dio n\u00e3o se deve entregar tudo, o r\u00e1dio tem sempre de ter um gostinho de quero mais\u201d ou \u201cr\u00e1dio n\u00e3o \u00e9 timbre, \u00e9 emo\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 uma refer\u00eancia aos antigos vozeir\u00f5es que dominavam as emissoras.<\/p>\n<p>Sabe-se ainda que Chacrinha n\u00e3o poupava seus convidados. No quadro \u201cBuzina do Chacrinha\u201d, logo depois da performance de algum calouro, ele gritava: \u201cvai para o trono, ou n\u00e3o vai?\u201d. E no in\u00edcio da carreira, ali pelos anos 1940, na R\u00e1dio Clube Fluminense, enquanto comandava o \u201cCassino do Chacrinha\u201d, o apresentador fingia com sons e ru\u00eddos que ali no est\u00fadio aconteciam grandes festas e badalados lan\u00e7amentos de discos. Mentira t\u00e3o deslavada quanto bem humorada. Entretanto, aqui em Conquista, Mac n\u00e3o ficava longe.<\/p>\n<p>Um tempo, Mac criou o \u201cHelic\u00f3ptero da Band\u201d, que cobria as ruas da nossa cidade em busca de informa\u00e7\u00f5es e de encontrar pessoas. Era comum ver gente olhando pra cima procurando pela nave que seguia dando detalhes sobre o tr\u00e2nsito e sobre os passantes que iam encontrando pelo caminho. Mas poucas pessoas se davam conta da veia c\u00f4mica, pr\u00f3pria das farsas. E tampouco os seus entrevistados ou colegas de bancada foram poupados de apelidos. Para Mac, Dilton Rocha era o \u201cDo Rio\u201d; Kleber Gusm\u00e3o era o \u201cEl\u00e9trico da Band\u201d; Ivan Lemos era o \u201cCharles Bronson de Conquista\u201d; Paulo Martins, \u201cO Moreninho da Band\u201d.<\/p>\n<p>Nem mesmo os entrevistados escapavam de seus ep\u00edtetos. O falecido deputado federal Coriolano Sales, por exemplo, recebeu de Mac Donald o qualificativo de \u201cO Futucador\u201d \u2014 Paulo Nunes me dissera um dia que Cori odiava. E foi Mac, junto com Nilton J\u00fanior, quem me p\u00f4s o famigerado apelido de \u201cof-hand\u201d \u2014 que eu tamb\u00e9m detestava, ali\u00e1s.<\/p>\n<p>Lembro que, nos anos 1990, Mac fez uma dupla impag\u00e1vel com Jo\u00e3o Melo na R\u00e1dio Clube AM no programa \u201cShow do Mac Donald\u201d, em que os fatos viravam causos t\u00e3o insuspeitados quanto aqueles que a gente l\u00ea em Bocage ou Pedro Malasartes. Nos anos 2000, de volta \u00e0 Band, Mac apresentou durante v\u00e1rios anos o \u201cForr\u00f3 da Band\u201d em que, ao modo de Chacrinha, transformava o est\u00fadio em um grande barrac\u00e3o ou em um imenso terreiro de fun\u00e7\u00e3o igualzinho \u00e0 m\u00fasica de Elomar. Quem o ouvisse, poderia jurar que, onde estivesse, Mac estava cercado de gente com violas \u201cseguro na m\u00e3o\u201d, gente sentada junto da fogueira com a mandur\u00e9ba \u201cati\u00e7ando os ti\u00e7\u00e3o\u201d e, em volta da fogueira, as meninas rodando bai\u00e3o.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Mac Donald se confunde com a hist\u00f3ria do r\u00e1dio e, principalmente, do jornalismo no r\u00e1dio em Conquista. Ele \u00e9 a comprova\u00e7\u00e3o de que fazer r\u00e1dio \u00e9 um eterno v\u00edcio para quem verdadeiramente nasceu radialista.<\/p>\n<p>Eu escrevi este texto porque vi Mac Donald recentemente e ouvi, comovido, a sua hist\u00f3ria de enfrentamento e de cura do \u201cImperador de Todos os Males\u201d, doen\u00e7a assim chamada pelo oncologista indiano Dr.\u00ba Siddhartha Mukherjee (ver o livro \u201cO Imperador de todos os males: uma biografia do c\u00e2ncer\u201d, editora Companhia das Letras), uma doen\u00e7a clandestina, sobre a qual a gente fala aos sussurros, mas que \u00e9 uma entidade perigosa. Digo entidade porque o imperador de todos os males n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a, mas v\u00e1rias.<\/p>\n<p>Entretanto, Mac tamb\u00e9m tem muitas faces e uma delas \u00e9 cheia de otimismo. Assim esta cr\u00f4nica n\u00e3o serve ao lamento, ela \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de amizade e ainda o reconhecimento da atitude ativa e confiante de Mac Donald diante deste desafio. Pois, t\u00e3o logo reuniu for\u00e7as, ele voltou ao r\u00e1dio, ao batente di\u00e1rio do jornalismo. Igual ao Chacrinha na m\u00fasica de Gilberto Gil, Mac continua \u201ccomandando a massa\/ e continua dando\/ as ordens no terreiro\u201d.<\/p>\n<p>Est\u00e1 l\u00e1 todos os dias, de segunda a sexta-feira, ao meio-dia e quinze, apresentando o seu jornal. Por isto mesmo, eu envio ao nosso Velho Guerreiro Mac Donald aquele abra\u00e7o\u2026<\/p>\n<p>Meu abra\u00e7o \u00e9 semelhante a amizade de Lya Cavalcanti com Carlos Drummond de Andrade porque, espero ter demonstrado, Mac \u00e9 um louco admir\u00e1vel, e eu o seu capanga. Afinal de contas, em muitos dos programas de r\u00e1dio que ele apresentou, eu estava do outro lado do aqu\u00e1rio como seu operador de \u00e1udio.<\/p>\n<p>Sa\u00fade, Mac\u00e3o! For\u00e7a sempre!<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3rias de um louco admir\u00e1vel (e seu capanga) Em agosto de 1988, aos quatorze anos de idade, ingressei para trabalhar na R\u00e1dio Bandeirantes FM de Vit\u00f3ria da Conquista, a nossa ZYC 311 e FM 97,5 MHZ (hoje 99,1). 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