{"id":53648,"date":"2016-11-13T15:47:26","date_gmt":"2016-11-13T18:47:26","guid":{"rendered":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=53648"},"modified":"2016-11-13T15:47:26","modified_gmt":"2016-11-13T18:47:26","slug":"comportamento-inadequado-nao-e-sintoma-de-tdah-alerta-psicanalista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=53648","title":{"rendered":"Comportamento inadequado n\u00e3o \u00e9 sintoma de TDAH, alerta psicanalista"},"content":{"rendered":"<p>Na\u00a0necessidade contempor\u00e2nea de rotular e resolver problemas com uma p\u00edlula m\u00e1gica, escolas e fam\u00edlias t\u00eam enviado cada vez mais crian\u00e7as aos consult\u00f3rios psiqui\u00e1tricos por conta de comportamentos considerados inadequados. Transtorno e d\u00e9ficit se tornaram termos populares e, de certo ponto de vista, um diagn\u00f3stico consolador, como se a solu\u00e7\u00e3o dependesse de um rem\u00e9dio e n\u00e3o de um esfor\u00e7o conjunto e dedicado de todos os adultos que a rodeiam.<\/p>\n<p>Percebendo o risco \u00e0 sa\u00fade mental dos pequenos por conta da crescente\u00a0prescri\u00e7\u00e3o de medicamentos perigosos, a psicanalista\u00a0Membro do Tempo Freudiano Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica Maria Cec\u00edlia Pires escreveu o texto a seguir para\u00a0alerta \u00e0s fam\u00edlias, publicado no site <a href=\"http:\/\/criarcrescer.com.br\/wp\/precisamos-falar-com-as-criancas\/\">Criar e Crescer<\/a>.<\/p>\n<h3>Observa\u00e7\u00f5es sobre tratamento e diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico na inf\u00e2ncia<\/h3>\n<p>A quest\u00e3o diagn\u00f3stica, em especial na inf\u00e2ncia, tornou-se, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, tema de enorme destaque. \u00a0Estamos frequentemente confrontados com a necessidade de diagnosticar aqueles comportamentos que nos colocam algum tipo de interroga\u00e7\u00e3o. \u00a0No caso espec\u00edfico da crian\u00e7a, essa necessidade se acentua sensivelmente.<\/p>\n<p>O que fazer com as crian\u00e7as? \u00a0O qu\u00ea e como ensin\u00e1-las? \u00a0At\u00e9 onde acolher e quando devemos proibir? S\u00e3o as nossas perguntas de todos os dias. \u00a0Perguntas muito bem-vindas, que podem testemunhar, simplesmente, do fato de que as crian\u00e7as nos afetam, de que nos sentimos respons\u00e1veis pelos cuidados com elas. \u00a0Ou seja, justamente por estarmos presentes, cuidando, lidando com as crian\u00e7as, nos acontece de n\u00e3o sabermos, muitas vezes, o qu\u00ea e como fazer.<\/p>\n<p>Podemos interrogar por que caminhos e de que maneira essas perguntas passaram a se desdobrar com tamanha frequ\u00eancia numa outra: qual o diagn\u00f3stico? \u00a0Sim, pois n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio nem necess\u00e1rio que essa passagem se d\u00ea.<\/p>\n<p>Em minha experi\u00eancia com tratamento de crian\u00e7as na rede p\u00fablica, constatei que nos chegavam todas as semanas encaminhamentos das escolas solicitando \u201cavalia\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica\u201d. \u00a0N\u00e3o poucas vezes me perguntei por que a primeira demanda da escola diante de uma dificuldade com as crian\u00e7as era a de uma avalia\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica, ou seja, um pedido de avalia\u00e7\u00e3o que supunha um transtorno neurol\u00f3gico diante de um comportamento dif\u00edcil de uma crian\u00e7a, que, em principio, poderia ser atribu\u00eddo a causas t\u00e3o variadas.<\/p>\n<p>Por outro lado, encontr\u00e1vamos fam\u00edlias para quem a gravidade do que se passava com seus filhos n\u00e3o era de modo algum presente. \u00a0Pais e m\u00e3es que ignoravam ou negligenciavam essas dificuldades, e para quem era preciso, de algum modo,apresent\u00e1-lasao longo do tratamento, afim de construir algum canal de di\u00e1logo entre a crian\u00e7a e a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>No consult\u00f3rio particular, \u00e9 tamb\u00e9m com essas posi\u00e7\u00f5es extremadas que frequentemente nos encontramos. \u00a0O apelo dos pais vem, muitas vezes, formulado nos termos que o nosso contexto cultural e social nos imp\u00f5e, isto \u00e9, busca-se o \u201ctranstorno\u201d, o \u201cd\u00e9ficit\u201d, ou ent\u00e3o, nos casos em que n\u00e3o se encontra como resposta esse tipo de diagn\u00f3stico, \u00e9 como se estiv\u00e9ssemos dizendo que a crian\u00e7a ou o adolescente n\u00e3o t\u00eam nada, que n\u00e3o h\u00e1 patologia ou sofrimento ps\u00edquico a ser tratado. \u00a0N\u00e3o cabe a n\u00f3s criticar nem esperar que isso se d\u00ea de outra forma. \u00a0Afinal, estamos todos, de um modo ou de outro, marcados pelo ideal cientificista que caracteriza nosso tempo, e \u00e9 com estes termos que nossa fala se formula, a respeito de n\u00f3s mesmos e de nossos filhos. \u00a0No entanto, \u00e9 preciso dizer, o trabalho cl\u00ednico com as crian\u00e7as exige de n\u00f3s um pouco mais.<\/p>\n<p>O tempo da crian\u00e7a \u00e9 o tempo de uma entrada no mundo, de uma constru\u00e7\u00e3o marcada pelo momento em que tudo est\u00e1 \u201cpor se fazer\u201d e, simultaneamente, por uma urg\u00eancia que nos imp\u00f5e passos enormes e t\u00e3o decisivos como aprender a andar, a falar, a ler e escrever. \u00a0\u00c9 um tempo de abertura, de titubeios, e tamb\u00e9m de precipita\u00e7\u00f5es e defini\u00e7\u00f5es, que vir\u00e3o a se confirmar na adolesc\u00eancia, mas cujas premissas, as bases, se estabelecem a\u00ed.<\/p>\n<p>Ora, a crian\u00e7a n\u00e3o faz nada disso sozinha. \u00a0\u00c9 na rela\u00e7\u00e3o com o outro que tudo isso se passa. \u00a0E \u00e9, portanto, \u00a0tamb\u00e9m nessa rela\u00e7\u00e3o que as dificuldades aparecem. Se os adultos t\u00eam problemas na vida amorosa e no trabalho, as crian\u00e7as, por sua vez, t\u00eam dificuldades com a aprendizagem, com os colegas, com os pais. Isto quer dizer que suas dificuldades expressam o que lhes acontece nessa rela\u00e7\u00e3o com o outro. \u00a0Ent\u00e3o, igualmente para adultos e crian\u00e7as, podemos dizer que nossas dificuldades falam. \u00a0Nossos sintomas dizem de n\u00f3s. \u00a0Eles s\u00e3o inc\u00f4modos, nos imp\u00f5em custos altos, s\u00e3o \u201ctranstornos\u201d, no sentido pr\u00f3prio do termo, e, ao mesmo tempo, s\u00e3o a forma de dizermos algo que se passa conosco, quando n\u00e3o encontramos outra forma de express\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo o diagn\u00f3stico que rege a psiquiatria infantil hoje \u00e9 baseado na descri\u00e7\u00e3o e no recenseamento de comportamentos, como se comportamentos e sintomas fossem sin\u00f4nimos. Identificar um conjunto de comportamentos n\u00e3o equivale a diagnosticar, assim como remediar n\u00e3o equivale a tratar, mesmo quando o tratamento inclui o recurso \u00e0 medica\u00e7\u00e3o \u2013 recurso importante, ali\u00e1s, nos casos em que h\u00e1 indica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os sintomas s\u00e3o de fato, os sinais que nos ajudam a identificar uma doen\u00e7a. \u00a0Mas, para o bem ou para o mal, nosso funcionamento subjetivo, e nossos sintomas ps\u00edquicos, n\u00e3o se reduzem a um comportamento. \u00a0Um sintoma ps\u00edquico \u00e9 mais do que um comportamento, \u00e9 uma articula\u00e7\u00e3o de elementos complexos e que pedem uma leitura cl\u00ednica. \u00a0Uma crian\u00e7a agitada, que fala muito, que \u00e9 inadequada em sala de aula \u2013 descri\u00e7\u00f5es comuns a crian\u00e7as diagnosticadas com TDAH, por exemplo \u2013 pode exigir muitos tipos de cuidados e interven\u00e7\u00f5es diferentes. \u00a0Mas, em todos os casos, identificar o que se passa com ela exigir\u00e1 que os adultos que a cercam nos falem a partir de sua rela\u00e7\u00e3o com ela, e que ela mesma possa, a seu modo, expressaralgo a algu\u00e9m que permita isso e que possa ouvi-la.<\/p>\n<p>O comportamento n\u00e3o \u00e9 um sintoma, eu dizia, porque um sintoma exige uma leitura cl\u00ednica, ou seja, exige a presen\u00e7a de algu\u00e9m que possa traduzir o que acontece com a crian\u00e7a, que possa fazer a leitura do que ela nos diz com sua dificuldade. \u00a0Para que uma doen\u00e7a seja tratada, \u00e9 preciso entrar em contato com ela. \u00a0\u00c9 na rela\u00e7\u00e3o com o outro que surgem nossas dificuldades e as da crian\u00e7a. \u00a0E \u00e9 tamb\u00e9m a\u00ed, na rela\u00e7\u00e3o com um outro, na rela\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, que o diagn\u00f3stico e o tratamento devem se dar, quando se fizerem necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Testemunhamos hoje uma confus\u00e3o extremamente perigosa entre o que seria simplesmente a manifesta\u00e7\u00e3o mais grosseira e superficial de uma dificuldade \u2013 isto \u00e9, o comportamento aparente \u2013 e aquilo que exige o mais elaborado e delicado trabalho, aquilo que exige um investimento enorme de todos \u2013 pais, profissionais e crian\u00e7a \u2013 isto \u00e9, o diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Para os pais e profissionais que lidam com crian\u00e7as, \u00e9 preciso partir da rela\u00e7\u00e3o com elas, construir, reconstruir e apostar nessa rela\u00e7\u00e3o permanentemente, para, apoiados nesse contato,poder, sim, dizer o que se passa com a crian\u00e7a. \u00a0\u00c9 preciso falar com a crian\u00e7a, e n\u00e3o nos contentarmos em falar sobre ela.<\/p>\n<p>Muitas vezes o diagn\u00f3stico amparado no comportamento tem sido usado como um \u00e1libi para todos, apaziguando nossas ang\u00fastias e nos dando a falsa sensa\u00e7\u00e3o de que ent\u00e3o, finalmente, sabemos o que fazer com a crian\u00e7a. \u00a0Os efeitos desse tipo de diagn\u00f3stico,revestido de seriedade cient\u00edfica mas, no entanto, extremamente fr\u00e1gil clinicamente, s\u00e3o muito danosos no caso da crian\u00e7a. \u00a0Pelo fato de atingirem um sujeito em forma\u00e7\u00e3o, podem passar a integrar de forma decisiva seu modo de se conduzir na vida desde muito cedo.<\/p>\n<p>Talvez seja melhor insistirmos nas nossas perguntas mais cotidianas, resistir um pouco a respostas que prometem tantas certezas, e buscar, com a ajuda ou n\u00e3o de profissionais, nos aproximar das crian\u00e7as, com os instrumentos que tivermos, ou seja, as palavras, as brincadeiras, e tamb\u00e9m, n\u00e3o esque\u00e7amos, a presen\u00e7a firme quando necess\u00e1rio. \u00a0Isso pode ser apoiado e sustentado a partir de um tratamento para a crian\u00e7a, ou mesmo para os pais. \u00a0\u00c9 frequente que o tratamento do pai ou da m\u00e3e possa resultar em benef\u00edcios indiretos e decisivos, para os filhos. \u00a0Mas, em todos os casos, \u00e9 preciso nos debru\u00e7armos sobre o que a crian\u00e7a est\u00e1 nos dizendo com suas dificuldades, para que isso possa ter outro destino. Quando nossa interven\u00e7\u00e3o segue puramente na dire\u00e7\u00e3o de silenciar, a qualquer custo, o inc\u00f4modo que as crian\u00e7as nos trazem, corremos o grave risco de produzir mais dificuldades e sintomas impeditivos para elas, mesmo que silenciosos.<\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\">*EBC<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na\u00a0necessidade contempor\u00e2nea de rotular e resolver problemas com uma p\u00edlula m\u00e1gica, escolas e fam\u00edlias t\u00eam enviado cada vez mais crian\u00e7as aos consult\u00f3rios psiqui\u00e1tricos por conta de comportamentos considerados inadequados. 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