{"id":59164,"date":"2017-05-14T19:15:22","date_gmt":"2017-05-14T22:15:22","guid":{"rendered":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=59164"},"modified":"2017-05-14T19:15:22","modified_gmt":"2017-05-14T22:15:22","slug":"maes-deixam-mercado-de-trabalho-cinco-vezes-mais-que-pais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=59164","title":{"rendered":"M\u00e3es deixam mercado de trabalho cinco vezes mais que pais"},"content":{"rendered":"<p>Os dias de Simone Fortuna s\u00e3o cheios. Pela manh\u00e3, cuida da filha, Emanuele, 2 anos e meio, e da casa. \u00c0s 11h, a leva para a escola. \u00c0s 12h30, come\u00e7a a rotina de trabalho, busca um casal de irm\u00e3os na escola e os deixa em casa para almo\u00e7arem. \u00c0s 13h, busca duas meninas em casa e as deixa na escola. Volta, busca os irm\u00e3os e os leva para as aulas de ingl\u00eas ou para a academia. \u00c0s 16h deixa outra crian\u00e7a na nata\u00e7\u00e3o e \u00e0s 18h30, busca as meninas na escola. Volta para casa, faz jantar, toma banho, cuida de Emanuele. Vai dormir \u00e0 meia-noite.<\/p>\n<p>Formada em administra\u00e7\u00e3o e com experi\u00eancia em telecomunica\u00e7\u00f5es, Simone \u00e9 uma das m\u00e3es que teve dificuldade em se recolocar no mercado de trabalho formal ap\u00f3s o nascimento da filha. Ela tem 49 anos e teve Emanuele aos 46 anos. Trabalhava na \u00e1rea comercial de uma empresa h\u00e1 quatro anos. Quando voltou da licen\u00e7a-maternidade, ap\u00f3s a fase na qual o v\u00ednculo do emprego \u00e9 protegido por lei, foi demitida. \u201cN\u00e3o falaram as raz\u00f5es, mas a gente sabe que tem muito preconceito. Senti isso nas entrelinhas. Disseram que a \u00e1rea de neg\u00f3cios era muito puxada, que eu estava com um beb\u00ea e deveria cuidar da minha filha\u201d.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o deixar de trabalhar, Simone criou o Transporte de Confian\u00e7a, esp\u00e9cie de Uber, no qual transporta exclusivamente crian\u00e7as. \u201cAtendo as m\u00e3es que justamente est\u00e3o estressadas, que n\u00e3o conseguem dar conta das rotinas e me ligam. Levo as crian\u00e7as para a escola, para o ingl\u00eas,<em> ballet<\/em> e at\u00e9 para o hospital, como aconteceu uma vez\u201d.<\/p>\n<p>O caso de Simone n\u00e3o \u00e9 isolado. Uma pesquisa divulgada pela empresa de recrutamento Catho, mostra que, ap\u00f3s a chegada dos filhos, as mulheres deixam o mercado de trabalho cinco vezes mais que os homens. A pesquisa foi feita com 13.161 pessoas. O levantamento concluiu que 28% das mulheres deixaram o emprego ap\u00f3s a chegada dos filhos, versus 5% dos homens.<\/p>\n<p>Os dados mostram ainda que 21% das mulheres levam mais de tr\u00eas anos para retornarem ao trabalho. A mesma situa\u00e7\u00e3o para os homens ocorre em apenas 2% dos casos.<\/p>\n<p>\u201cApesar do discurso ser outro, na pr\u00e1tica, em muitas empresas, a mulher n\u00e3o \u00e9 compreendida. N\u00e3o compreendem a necessidade, por exemplo, da mulher se ausentar\u201d, diz Simone. &#8220;Quando n\u00e3o demite a funcion\u00e1rio, a pr\u00f3pria rotina pode lev\u00e1-la a pedir demiss\u00e3o. Uma vez fora do mercado, as dificuldades em voltar a trabalhar s\u00e3o muitas. Teve um caso espec\u00edfico que disputei uma vaga com 12 candidatos. No final, ficou entre eu e um rapaz. Quando chegou na fase final de entrevista, contei que tinha uma crian\u00e7a de um ano e meio, na \u00e9poca\u201d, conta e diz que no final, n\u00e3o foi contratada.<\/p>\n<p><strong>Empregadores podem incentivar m\u00e3es<\/strong><\/p>\n<p>Segundo a gerente de relacionamento com o cliente da Catho, K\u00e1tia Garcia, h\u00e1 ainda em empresas um certo preconceito, que pode ser comprovado quando analisados os cargos mais altos, ocupados, na maior parte das vezes, por homens. A pesquisa realizada pela empresa mostra que houve um aumento da participa\u00e7\u00e3o feminina em diferentes cargos, subiu de 54,99% em 2011 para 61,57% em 2017. No entanto, as desigualdades permanecem. Elas ocupavam, em 2011, 22,91% dos cargos de presid\u00eancia; em 2017, esse n\u00famero passou para 25,85%.<\/p>\n<p>\u201cIsso pode sim ter rela\u00e7\u00e3o com a maternidade. Quando a mulher est\u00e1 mais pr\u00f3xima de 30 e poucos anos, seria a idade que avan\u00e7aria para a pr\u00f3xima etapa da carreira. \u00c9 tamb\u00e9m, geralmente, a idade que faz op\u00e7\u00e3o pela maternidade. Isso pode ter rela\u00e7\u00e3o com ritmo mais lento de evolu\u00e7\u00e3o de carreira das mulheres\u201d, diz a gerente.<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, empresas que incentivam as funcion\u00e1rias e, para K\u00e1tia Garcia, isso pode ser uma forma do pr\u00f3prio empregador se beneficiar. \u201cQuando uma mulher se torna m\u00e3e, ela desenvolve ou potencializa habilidades que podem ser super bem aproveitadas, como capacidades de comunica\u00e7\u00e3o e de lideran\u00e7a. Se a empresa tem percep\u00e7\u00e3o disso e investe em pol\u00edticas internas que fa\u00e7am com que a mulher perceba que seu trabalho \u00e9 valorizado independente de ser m\u00e3e, a empresa tem um ganho gigantesco com isso\u201d, diz K\u00e1tia.<\/p>\n<p>De acordo com ela, uma boa estrat\u00e9gia \u00e9 permitir o trabalho de casa, por <em>home office<\/em> e hor\u00e1rios mais flex\u00edveis, especialmente nos primeiros anos de vida da crian\u00e7a. A empresa pode tamb\u00e9m investir em treinamentos para que a mulher melhore a administra\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio tempo. \u201cA mulher vai procurar ser mais eficiente na gest\u00e3o do tempo para otimizar as entregas no per\u00edodo que est\u00e1 dispon\u00edvel para a empresa. E a empresa n\u00e3o tem nada a perder\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>Cuidar dos filhos n\u00e3o \u00e9 papel s\u00f3 da m\u00e3e<\/strong><\/p>\n<p>Para jornalista Mayara Penina, co-fundadora do <a href=\"http:\/\/xn--ns%2C%20mulheres%20da%20periferia-0gd\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">N\u00f3s, mulheres da periferia<\/a> e m\u00e3e do Joaquim, de 4 anos, ainda vivemos em uma sociedade que delega apenas para as mulheres o servi\u00e7o dom\u00e9stico e de cuidado com as crian\u00e7as e com a casa. \u201cFalta uma pol\u00edtica de apoio, seja nas empresas privadas, como os munic\u00edpios com vagas em creches para que as mulheres continuem suas vidas profissionais depois de terem filho. Ou, muitas vezes, iniciem esta carreira, j\u00e1 que muitas mulheres ficam gr\u00e1vidas na adolesc\u00eancia\u201d, diz.<\/p>\n<p>Na falta de apoio, muitas acabam recorrendo ao empreendedorismo, como Simone. Segundo Mayara, a sociedade v\u00ea a mulher m\u00e3e, apenas como m\u00e3e e esquece das outras dimens\u00f5es que envolvem uma mulher, um ser humano. \u201cH\u00e1 muito glamour e romantismo que envolve a maternidade que, de maneira nenhuma, \u00e9 aplic\u00e1vel na pr\u00e1tica. \u00c9 uma ben\u00e7\u00e3o ser m\u00e3e, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma grande problema para a maioria esmagadora das mulheres, que n\u00e3o est\u00e3o no topo da pir\u00e2mide social e querem conciliar o trabalho com o cuidado com os filhos e a casa, morando longe dos seus trabalhos e ganhando muito pouco\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTem uma heran\u00e7a cultural bastante arraigada ainda que a responsabilidade pela educa\u00e7\u00e3o dos filhos \u00e9 das m\u00e3es. A maioria dos pais tem papel coadjuvante, principalmente nos primeiros anos dos filhos\u201d, complementa K\u00e1tia, que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e3e. \u201cIsso explica porque m\u00e3es demoram mais para retornar que homens. Muitos homens tornam-se pais e a vida continua igual. A mulher tem uma segunda responsabilidade, al\u00e9m da que tinha\u201d.<\/p>\n<p>*EBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dias de Simone Fortuna s\u00e3o cheios. 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