{"id":113941,"date":"2022-03-22T16:49:20","date_gmt":"2022-03-22T19:49:20","guid":{"rendered":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=113941"},"modified":"2022-03-22T16:49:20","modified_gmt":"2022-03-22T19:49:20","slug":"eu-so-quereria-ter-o-que-eu-tivesse-sido-e-nao-fui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=113941","title":{"rendered":"Eu s\u00f3 quereria ter o que eu tivesse sido e n\u00e3o fui"},"content":{"rendered":"<div class=\"pos-info-post\">\n<h3 class=\"visualizacao-postagem\" style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-111697\" src=\"http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo.jpg\" alt=\"\" width=\"831\" height=\"154\" srcset=\"https:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo.jpg 831w, https:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo-300x56.jpg 300w, https:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo-695x129.jpg 695w, https:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Elton-Mafua-de-Malungo-768x142.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 831px) 100vw, 831px\" \/><\/h3>\n<h3 class=\"visualizacao-postagem\" style=\"text-align: center;\">Uma hist\u00f3ria de quem enfrentou a paix\u00e3o e seu desespero<\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"pos-texto\">\n<figure id=\"0\" class=\"image foto-capa img-capa-media\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.conquistadefato.com.br\/images\/noticias\/13720\/18367807e3791cde45a62ca848402d17.jpeg\" alt=\"Lauren Bacall, atriz estadunidense (1924-2014)\" \/><figcaption>Lauren Bacall, atriz estadunidense (1924-2014)<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"texto\">\n<p>Eu n\u00e3o quero falar em felicidade ou infelicidade, mas o dia em que mais chorei nesta vida tamb\u00e9m foi o dia em que eu comecei a prestar mais aten\u00e7\u00e3o em um colega de trabalho. A princ\u00edpio, tinha asco dele. E n\u00e3o \u00e9 assim que come\u00e7am os melhores enredos de amor? Em pouco tempo, nos tornamos c\u00famplices e me interessei pela hist\u00f3ria dele. Era divorciado, a mulher os abandonara, a ele e ao filho. Eu, claro, j\u00e1 criara o enredo sonhado: duas almas solit\u00e1rias se preparariam para a magia de amar.<\/p>\n<p>Logo, sem muita tardan\u00e7a, n\u00e3o havia assuntos proibidos para n\u00f3s. Eu gostava mais de estar com Ele e falar as coisas mais chatas da vida do que estar sozinha ou com outra pessoa falando sobre as coisas mais divertidas e interessantes. \u00c9 verdade que as coisas mais chatas da vida continuavam a ser chatas, mas com Ele tudo era divertido. Eu era uma mulher nova, com percep\u00e7\u00f5es novas, perspectivas novas e mais vivas, e com uma solenidade quase que religiosa.<\/p>\n<p>N\u00e3o importava onde eu estivesse ou o que estivesse fazendo. O que importava era estar com Ele, no quanto eu ficava zonza, estonteada de t\u00e3o feliz e feliz de t\u00e3o zonza, nas minhas m\u00e3os o maior bem entre os bens terrenos. Mas eu era precipitada. Algu\u00e9m j\u00e1 disse que o tempo de querer bem \u00e9 o mais desgracioso e infal\u00edvel veneno, supera quaisquer outras bebidas ou po\u00e7\u00f5es de caf\u00e9, \u00e1lcool, \u00e1cido ou estricnina, e vai fomentando desejos por maiores, maiores e maiores doses.<\/p>\n<p>Envenenada, eu precisava fazer alguma coisa. Carta de amor? N\u00e3o, j\u00e1 tinha passado sem dar por isso e j\u00e1 era o tempo em que escrevia cartas de amor. E-mail? Tamb\u00e9m n\u00e3o, poderia cair na caixa de spam ou virar lixo eletr\u00f4nico, ademais quase ningu\u00e9m usava mais. Mensagem no celular? Sutil, por\u00e9m vazia. Finalmente, me decidia. Tomei o bloquinho autoadesivo na minha frente e comecei a escrever.<\/p>\n<p>Papai dizia \u201cum \u00e9 pouco, dois \u00e9 bom e tr\u00eas nunca \u00e9 demais quando a exagera\u00e7\u00e3o \u00e9 de Amor, que o exagero de Amor \u00e9 mais belo que a gratid\u00e3o\u201d. Ent\u00e3o, escrevi com toques de desespero e de espanto. Assinei em um cart\u00e3ozinho, colei no teclado d\u2019Ele e sa\u00ed porta \u00e0 fora, embargada, sem rumo, com pressa de sair e com milhares de peda\u00e7os de coisas me passando na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Um ou dois dias se passaram e recebi um cart\u00e3o-resposta. \u201cO amor \u00e9 feito de muitos sentimentos diferentes e eu gosto muito de voc\u00ea, mas n\u00e3o posso. N\u00e3o podemos. Voc\u00ea n\u00e3o suportaria\u201d. Assinado: D.N.V.U. \u00c9 claro, Ele n\u00e3o me amava. Dei para ter raiva dele novamente, n\u00e3o podia v\u00ea-lo, que me arrepiava de nojo. Pois o amor pode viver de recorda\u00e7\u00f5es, mas o \u00f3dio s\u00f3 requer o presente.<\/p>\n<p>Logo, eu quis virar a p\u00e1gina, desapaixonar e encarnar Mae West, em \u201cSanta Eu N\u00e3o Sou\u201d. Quando sou boa, sou \u00f3tima. Quando sou m\u00e1, sou melhor ainda. Tamb\u00e9m me vi como Lauren Bacall, em \u201cComo Agarrar Um Milion\u00e1rio\u201d, no momento em que ela diz que uma mulher escolhe melhor um cavalo de ra\u00e7a que um namorado, ou um marido. Tracei meu plano, fiquei com o cavalo e escolhi ser m\u00e1. E funcionou\u2026<\/p>\n<p>Quer dizer, durou um tempo at\u00e9 aquela liga\u00e7\u00e3o d\u2019Ele num s\u00e1bado \u00e0 tarde.<\/p>\n<p>\u201cPodemos nos falar?\u201d, perguntou. \u201cVenha \u00e0 minha casa\u201d, eu respondi, j\u00e1 passando o endere\u00e7o. Ele chegou quando disse que chegaria, pontual\u00edssimo. Eu j\u00e1 estremeci com isto. \u201c\u00c1gua, caf\u00e9 ou ch\u00e1\u201d, ofereci. Ele se decidiu pelo caf\u00e9 e, na cozinha, enquanto preparava, conversamos nervosos sobre coisas desconexas, assuntos t\u00e3o esparsos quanto variados, o dia frio, a neblina persistente, o feriado\u2026 Sentamo-nos no sof\u00e1 da sala e ele, polido, com um leve tremor nas m\u00e3os. No fundo do peito, meu cora\u00e7\u00e3o fazia um ru\u00eddo confuso.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou. Disse que tinha algo muito importante e delicado para me revelar, que seria imposs\u00edvel escrever. Ele completa que n\u00e3o gostaria de ter escrito o que escreveu. Eu acompanhava tudo e, namorando-o com olhadelas furtivas, eu observava seu lindo cabelo preto, seu rosto de nazareno, seu corpo deliciosamente perfumado, seu porte, como uma palmeira.<\/p>\n<p>A esta hora, eu j\u00e1 ajeitara o vestido n\u00e3o sei quantas vezes, mudara de posi\u00e7\u00e3o no sof\u00e1 de quando em quando, e nem sabia o que fazia mais das m\u00e3os ou das pernas. Vez a vez, esfregava as m\u00e3os para ter coragem, porque aquela parte de meu corpo me surpreendia com sua vida quase pr\u00f3pria. Suave calor me penetrava os nervos, me dominava as carnes. Amavelmente, interrompi sua fala. Acariciei seu rosto e Ele, falso, correspondeu.<\/p>\n<p>Nos beijamos, t\u00f3rridos, ofegantes, sem biocos de honra. Ele me beijou as orelhas e atr\u00e1s das orelhas e uma respira\u00e7\u00e3o ofegante ergueu sobre o meu peito os colares de conta. Ele tocou os meus cabelos. \u201cNo cabelo n\u00e3o. S\u00f3 com muita intimidade\u201c, dissimulei mas estremeci, n\u00e3o resisti. Estava demais saidinha. Queria o alcance daquela flauta doce, em que eu me envolveria em macio cip\u00f3. Meti a m\u00e3o l\u00e1. L\u00e1 na cal\u00e7a d\u2019Ele meu desespero.<\/p>\n<p>A trilha sonora aqui \u00e9 de Maysa: meu mundo caiu. \u00d3dio doente! \u00d3dio s\u00e3o! \u00d3dio bom! \u00d3dio ruim! S\u00f3 de lembrar agora tenho \u00f3dio dele. N\u00e3o, n\u00e3o tenho \u00f3dio, tenho pena. Naquela hora tive vontade de dar socos. \u201cMas voc\u00ea tem um filho\u201d, gritei. \u201cComo \u00e9 isso?\u201d. E Ele me desafiou: \u201cH\u00e1 coisas que provocam a sede do mist\u00e9rio e voc\u00ea \u00e9 uma mulher inteligente, ent\u00e3o deduza\u201d. Ainda em desatino, pedi que fosse embora aos berros. Abruptamente fechei a porta e a soquei violentamente.<\/p>\n<p>Depois, lembrei: estou inundada e preciso me trocar. Precisava de um banho, na verdade. Precisava sair porque n\u00e3o poderia ficar em casa. Ang\u00fastia terr\u00edvel, assombrosa dor horr\u00edvel. Precisava de uma cerveja. Precisava conversar. Liguei para minha amiga Anamartha, mas ela n\u00e3o atendeu. Sa\u00ed. Entrei no primeiro bar aberto e entrei desassombrada \u2014 eu que pensava que n\u00e3o houvesse malassombro maior do que eu.<\/p>\n<p>O gar\u00e7om me trouxe a cerveja, que bebi toda de uma vez, com del\u00edcia e vol\u00fapia, toda a del\u00edcia e vol\u00fapia que eu quisera daquele homem. Tomei o celular e escrevi para Anamartha: \u201cAcabou. O gigante nada mais \u00e9 que a sombra de um nanico! Preciso lhe falar\u201d. Anamartha ligou algum tempo depois, eu contei por cima.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 posso dizer que o meu dente de alho \u00e9 maior do que o que Ele tem, seja l\u00e1 o que for\u201d. Anamartha n\u00e3o acredita. Nem eu acredito. \u201cE voc\u00ea fez o qu\u00ea?\u201d, ansiosa ela quis saber. Falei que quis socar a cara dele e depois tive pena, sei l\u00e1. Anamartha riu, eu ri e desligamos. Se passaram alguns minutos e Anamartha me enviou o desenho de um pinto enorme acompanhado da frase: \u201cDedicado a voc\u00ea, que come\u00e7ou a noite como Julieta e quase acabou como Lady Macbeth\u201d.<\/p>\n<p>Eu ri novamente, deixei o celular de lado e pensei alto. Pensei n\u00e3o em Lady Macbeth, contudo em Macab\u00e9a e seu fundo enjoo. Foi quando as l\u00e1grimas vieram, irrefre\u00e1veis. Eu, malas-artes, tamb\u00e9m vivi quase tudo da paix\u00e3o e o seu desespero. E agora s\u00f3 queria ter o que eu tivesse sido e n\u00e3o fui. Febre, hemoptise, dispneia, suores soturnos, mais a saudade do que poderia ter sido e n\u00e3o foi. Luta em que n\u00e3o lutei, perda em que n\u00e3o perdi, saudade de algo que poderia ter vingado, por\u00e9m n\u00e3o vingou. N\u00e3o despertem nem incomodem o amor de seu sono porque ele \u00e9 um inferno, est\u00e1 escrito no C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. Mas eu adoro arder em agonia.<\/p>\n<p>Mesmo que seja um amor mal-azado e ainda quando naquela hora atr\u00e1s tenha descoberto que o homem que eu amava seja nulo, pois nascera com agenesia gonadal. Um homem lindo e que acaso a sina o fez infeliz sem p\u00eanis e sem test\u00edculos. Contudo ele foi durante um tempo uma estrela luzindo em minha vida vazia. A hora da estrela deu em uma esperan\u00e7a menos triste ao fim do meu dia. Ainda hoje sonho que \u00e9 estrela da vida inteira. Embora seja estrela t\u00e3o alta, estrela t\u00e3o fria.<\/p>\n<p>Quando, um dia, eu for velhinha, hei de encontrar-te, estrela, no caminho?<\/p>\n<p>Se tudo neste mundo come\u00e7ou com um sim, por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u2014 Para a historiadora Ana Cl\u00e1udia Rocha Tomagnini Igurrola e para a fil\u00f3sofa Ariele Chagas Cruz. Estrelas, para mim. Estrelas. N\u00e3o sei se de Macondo ou de Pas\u00e1rgada. Estrelas V\u00e9sper do pastor errante.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma hist\u00f3ria de quem enfrentou a paix\u00e3o e seu desespero Lauren Bacall, atriz estadunidense (1924-2014) Eu n\u00e3o quero falar em felicidade ou infelicidade, mas o dia em que mais chorei nesta vida tamb\u00e9m foi o dia em que eu comecei a prestar mais aten\u00e7\u00e3o em um colega de trabalho. A princ\u00edpio, tinha asco dele. 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