{"id":49542,"date":"2016-06-17T16:09:27","date_gmt":"2016-06-17T19:09:27","guid":{"rendered":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=49542"},"modified":"2016-06-17T16:09:27","modified_gmt":"2016-06-17T19:09:27","slug":"estupro-nao-e-piada-e-praca-nao-tem-dignidade-sexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=49542","title":{"rendered":"Estupro n\u00e3o \u00e9 piada e pra\u00e7a n\u00e3o tem dignidade sexual."},"content":{"rendered":"<blockquote><p>(&#8230;) A decad\u00eancia dos povos j\u00e1 ter\u00e1 ido t\u00e3o longe, que quase n\u00e3o ter\u00e3o mais for\u00e7a de esp\u00edrito para ver e avaliar a decad\u00eancia simplesmente como\u2026 Decad\u00eancia.(&#8230;) (HEIDEGGER. MARTIN.<strong> Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Metaf\u00edsica<\/strong><strong>. Editora Tempo Brasileiro, 1966, Rio de Janeiro)<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Por Luiz Henrique Machado de Paula<\/strong><\/p>\n<p>Se o politicamente correto tornou-se s\u00edmbolo de um conservadorismo autorit\u00e1rio e que estaria a impedir que o humor possa livremente ser praticado, limitando os temas e assuntos e podando os humoristas de recursos v\u00e1lidos, tal situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o autoriza, a t\u00edtulo de lutar contra essa suposta opress\u00e3o, ainda que em nome da \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d e da \u201calegria do povo brasileiro\u201d, quem quer que seja e muito menos um representante do poder estatal, a encaminhar mensagem que absurdamente se pretende c\u00f4mica ou de conte\u00fado d\u00fabio e de extremo mau gosto, por aplicativo de telefonia celular, \u201credes sociais\u201d, missiva ou pombo-correio.<\/p>\n<p>Diante de uma situa\u00e7\u00e3o b\u00e1rbara amplamente noticiada (estupro coletivo de uma jovem), \u00e9 inacredit\u00e1vel que certas pessoas consigam fazer piada ou met\u00e1fora sobre viol\u00eancia sexual, diminuindo a gravidade do fato e a condi\u00e7\u00e3o humana da v\u00edtima.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m, piadista, diz que as mulheres podem passear tranquilamente sem medo de serem estupradas desde que estejam com um fuzil pendurado no ombro, est\u00e1 a dizer, em sentido contr\u00e1rio, que se a mulher estiver desarmada corre o risco de ser estuprada. Ou seja, diz que o \u201cvalor\u201d a ser respeitado \u00e9 o fuzil, a arma e n\u00e3o a mulher. Diz que a mulher nada vale sem o seu fuzil.<\/p>\n<blockquote><p>como algu\u00e9m querer comparar o abandono de uma pra\u00e7a p\u00fablica com uma mulher v\u00edtima de estupro coletivo<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o querendo explicar o inexplic\u00e1vel e ainda que o inexplic\u00e1vel pudesse ser explicado, ter explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa que o fato \u00e9 aceit\u00e1vel. Mas, apenas para argumentar, podemos pensar que estamos em uma sociedade extremamente machista e esse machismo, caracter\u00edstica cultural do povo brasileiro, se manifesta no cotidiano de v\u00e1rias maneiras (como algu\u00e9m querer comparar o abandono de uma pra\u00e7a p\u00fablica com uma mulher v\u00edtima de estupro coletivo, vejam o texto: Lagoa das Bateias Sofre Estupro Coletivo, publicado em alguns blogs de Vit\u00f3ria da Conquista\/BA) e a piada sexista \u00e9 mais uma forma corriqueira e est\u00fapida de reprodu\u00e7\u00e3o de preconceitos. Isso se o piadista for um homem.<\/p>\n<blockquote><p>a piada sexista \u00e9 mais uma forma corriqueira e est\u00fapida de reprodu\u00e7\u00e3o de preconceitos. Isso se o piadista for um homem.<\/p><\/blockquote>\n<p>Se o piadista for uma mulher, podemos pensar que a cultura machista \u00e9 t\u00e3o forte e impregnada no meio social brasileiro que muitas mulheres sequer percebem que reproduzem e refor\u00e7am tal situa\u00e7\u00e3o, muitas vezes aceitando as \u201cbrincadeiras inocentes\u201d e repetindo a piada por aplicativos de celular e \u201credes sociais\u201d.<\/p>\n<p>E quando o piadista for algu\u00e9m, independente do sexo, com atribui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de proteger as mulheres v\u00edtimas de discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia de g\u00eanero?<\/p>\n<p>Podemos pensar que o servidor p\u00fablico adv\u00e9m da sociedade e tamb\u00e9m foi \u201ccultivado\u201d em meio machista e por isso reproduz o que aprendeu. O que n\u00e3o \u00e9 uma verdade, como disse WITTGENSTEIN, referindo-se aos descombros da cultura, sempre haver\u00e1 um esp\u00edrito que flutuar\u00e1 sobre as cinzas. Felizmente existem muitos destes esp\u00edritos flutuando sobre as cinzas do preconceito e da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mas se nem todos s\u00e3o onagros que apenas reproduzem o comportamento geral machista, se nem todos agem sem reflex\u00e3o, imitando a massa<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a> apenas para se sentirem socialmente aceitos, se alguns flutuam sobre as cinzas, qual a explica\u00e7\u00e3o para encontrarmos nas ag\u00eancias que foram criadas para a defesa dos direitos das mulheres pessoas que conseguem fazer piadas diante de uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia sexual?<\/p>\n<p>Se nossa \u201ccultura\u201d exigiu que o Estado implantasse pol\u00edticas p\u00fablicas afirmativas numa tentativa de igualar (em poder e no poder) homens e mulheres, deveria este mesmo Estado se preocupar em buscar os melhores, os mais especializados para executar tais pol\u00edticas. Pelo menos deveria se preocupar em n\u00e3o designar pessoas que demonstram total insensibilidade ao tema, pessoas que n\u00e3o conseguem perceber que piadas sobre estupro s\u00e3o inadmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>Somente algu\u00e9m insens\u00edvel (talvez semelhante ao agressor) ou cujo senso cr\u00edtico encontrasse no mais baixo n\u00edvel \u00e9 capaz de rir da indignidade de uma viol\u00eancia sexual. Essa \u00e9 a mesma pessoa que vai fazer coment\u00e1rios racistas, que acredita que sua roupa de grife lhe faz superior ao outro e que se diz crist\u00e3o, como se isso bastasse para nos livrar de todo o mal.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso falar, se indignar, reclamar, espernear e nunca aceitar quando fazem piada com algo t\u00e3o triste e absurdo, ainda que isto lhe custe olhares enviesados de \u201ccolegas\u201d ou que aumente o volume dos que lhe adjetivam de chato e petulante (para n\u00e3o falar dos adjetivos impublic\u00e1veis), como diz C\u00e1tia de Fran\u00e7a<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>, chega um momento em que a pessoa precisa se revoltar e mostrar seu palavreado, ou ent\u00e3o, assumir seu papel de mamulengo.<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria da Conquista, em 17 de junho de 2016.<\/p>\n<h6><em><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Para uma compreens\u00e3o sobre massa ver <strong>Massa e Poder<\/strong> de Elias Canetti, editado no Brasil pela Companhia das Letras e <strong>Psicologia das Massas e An\u00e1lise do Eu <\/strong>de Sigmund Freud, editado no Brasil por v\u00e1rias empresas, com excelente edi\u00e7\u00e3o de bolso da LPM\/POCKET.<\/em><\/h6>\n<h6><em><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Verso da composi\u00e7\u00e3o Vinte Palavras Girando ao Redor do Sol (letra e m\u00fasica) de C\u00e1tia de Fran\u00e7a com trechos do poema Graciliano Ramos de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto.<\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(&#8230;) A decad\u00eancia dos povos j\u00e1 ter\u00e1 ido t\u00e3o longe, que quase n\u00e3o ter\u00e3o mais for\u00e7a de esp\u00edrito para ver e avaliar a decad\u00eancia simplesmente como\u2026 Decad\u00eancia.(&#8230;) (HEIDEGGER. 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