{"id":85665,"date":"2019-09-12T18:53:46","date_gmt":"2019-09-12T21:53:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=85665"},"modified":"2019-09-12T18:53:46","modified_gmt":"2019-09-12T21:53:46","slug":"o-estupro-legal-no-pais-do-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=85665","title":{"rendered":"O estupro legal no pa\u00eds do carnaval"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-85667\" src=\"http:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/carlos-nascimento.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/carlos-nascimento.jpeg 300w, https:\/\/blitzconquista.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/carlos-nascimento-215x120.jpeg 215w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Por Carlos Nascimento<\/strong> &#8211; Quando aguardava pelo nascimento de minha primeira filha, um amigo, pai de uma rec\u00e9m-nascida, perguntou: \u201cE a\u00ed? \u00c9 homem ou mulher?\u201d. Respondi que seria uma menina e, de imediato, recebi um tapa nas costas acompanhado de uma profecia em tom jocoso: \u201cPois \u00e9. Vamos pagar por todas as mis\u00e9rias que fizemos com as filhas desses sujeitos por a\u00ed!\u201d. Um pouco assustado com a senten\u00e7a, retruquei dizendo que n\u00e3o me recordava de j\u00e1 ter violentado algu\u00e9m e que, o pouco que havia \u201caprontado\u201d na vida, o fizera de comum acordo com as \u201caprontandas\u201d. Logo, quando chegasse a vez de minha filha namorar, que o fizesse em paz e com a alma leve. Afinal, sexo \u00e9 bom, e assim deve ser para todos.<br \/>\nSempre que fa\u00e7o esta reflex\u00e3o, penso na aceita\u00e7\u00e3o do papel do macho como violador. \u00c9 ele, var\u00e3o, o respons\u00e1vel pelo deflorar da mulher, importando pouco o desejo e a prazer da f\u00eamea vitimada. Este mesmo homem, que entende poder transgredir a idealizada inoc\u00eancia feminina, tem tamb\u00e9m a obriga\u00e7\u00e3o de proteger e castrar a sexualidade de suas herdeiras. Causa e efeito do medo que forja o imagin\u00e1rio masculino.<br \/>\nQuando tratamos de estupro, vale pensar nesta express\u00e3o como algo que transcende o ato f\u00edsico. \u00c9 bom lembrar que, invas\u00f5es ao direito e a privacidade das mulheres est\u00e3o presentes em atitudes diversas, e permanecem a se alojar nos mais corriqueiros costumes, absorvidos e repassados tamb\u00e9m por estas, uma vez que educadas a partir de conceitos machistas, entendidos e aceitos como normatizadores sociais. (In)consci\u00eancia coletiva que se projeta em irrup\u00e7\u00f5es que v\u00e3o para al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es genitais, pois, o ato e o discurso estuprador legitimam a imagem do homem frente a uma sociedade patriarcal e reacion\u00e1ria.<br \/>\nVis\u00edvel consequ\u00eancia disto aparece no questionamento normalmente feito pela sociedade quanto \u00e0 inoc\u00eancia da mulher v\u00edtima de viol\u00eancia sexual. A atitude sensual, a forma de vestir, a exposi\u00e7\u00e3o a lugares impr\u00f3prios ou o \u201cpecado\u201d de gostar de sexo s\u00e3o<br \/>\nusualmente colocados como atributos culposos a esta. Forma disfar\u00e7ada, mas consciente, de manuten\u00e7\u00e3o do discurso estuprador.<br \/>\nA feminista negra (e negra) Djamila Ribeiro descreve com propriedade como o dom\u00ednio do Estado (machista) sobre o corpo da mulher \u00e9 determinante para esta cultura. Em Quem tem medo do feminismo negro? (Companhia das Letras, 2018), relata, atrav\u00e9s da cr\u00edtica a fatos cotidianos, como a manuten\u00e7\u00e3o destes (pr\u00e9)conceitos permanece viva e impregnada no dia-a-dia das pessoas. Em particular, discorre sobre posi\u00e7\u00e3o da mulher negra, tratada como subumana, disposta \u00e0 sociedade e ao mercado de trabalho como servi\u00e7al dom\u00e9stica e sexual. Pior dos reflexos do escravagismo que ainda n\u00e3o se desprendeu de nossa forma\u00e7\u00e3o. Tudo isso \u00e9 viol\u00eancia, \u00e9 invas\u00e3o, \u00e9 estupro.<br \/>\nEm tempos recentes, um deputado federal declarou em p\u00fablico a quem preferia (ou n\u00e3o) estuprar. Escolha honrosamente negada \u00e0 colega de plen\u00e1rio a quem entendia estar ofendendo. Al\u00e9m de imperdo\u00e1vel, sua afirma\u00e7\u00e3o reflete (e incentiva) a ideia de que o estupro \u00e9 um direito leg\u00edtimo do homem.<br \/>\nPensamento n\u00e3o diferente do explicitado na postura do ministro da Economia que, ao defender a retomada da CPMF afirmou que: se esta for \u201cpequenininha, n\u00e3o machuca\u201d. Seu \u201chumor\u201d exemplifica o como estas express\u00f5es machistas est\u00e3o encrustadas em nossa cultura, sendo corriqueiramente usadas sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica. Talvez importe lembrar ao ministro que, em uma rela\u00e7\u00e3o entre iguais (democr\u00e1tica), o penetrar, seja do tributo grande ou do p\u00eanis pequeno, deve ser negociado, n\u00e3o imposto.<br \/>\nNa contram\u00e3o destes discursos, a paulista Ana Ca\u00f1as canta seu sexo expl\u00edcito de forma violenta. Uma poesia carnal, agressiva e necess\u00e1ria. Que ofende homens e assusta mulheres, justamente por fazer o caminho inverso, violentando o universo machista que n\u00e3o aceita este direito quando posto \u00e0 voz feminina.<br \/>\nSabe-se que, muitas das m\u00fasicas que fazem sucesso nas r\u00e1dios e na internet, descrevem mulheres sexualizadas e submissas, convocadas a \u201csentar\u201d, \u201cchupar\u201d, \u201cajoelhar\u201d, \u201crebolar\u201d, mas nunca a gozar. O ato estuprador n\u00e3o \u00e9 entendido como parte da natureza feminina e, por isso mesmo, a arte de Ca\u00f1as \u00e9 fundamental ao Brasil de hoje.<br \/>\nEm campo distinto, mas em reflex\u00e3o an\u00e1loga, o escritor e psicanalista Contardo Calligaris descreve o Brasil como um lugar eternamente disposto ao estupro. Em seu<br \/>\nlivro Hello Brasil (Editora Escuta, 1991), analisa a rela\u00e7\u00e3o dos colonizadores portugueses com esta terra prometida e disposta \u00e0 explora\u00e7\u00e3o eterna. Calada, pronta ao deleite de seu conquistador, ela n\u00e3o tem o direito de rea\u00e7\u00e3o e \u00e9 desprezada como uma prostituta, sob os bravios de \u201ceste pa\u00eds n\u00e3o presta\u201d.<br \/>\nTrazer as percep\u00e7\u00f5es de Calligaris a este escrito se faz importante, pois demonstra o quanto o patriarcado, o falo que fala, naturaliza a viola\u00e7\u00e3o da terra e da sociedade. Por isso mesmo, sua compara\u00e7\u00e3o com a viola\u00e7\u00e3o da mulher refor\u00e7a a indissociabilidade entre o feminismo e a pol\u00edtica. Reivindicar o direito ao sexo e ao corpo (rid\u00edculo ainda se falar nisso em pleno s\u00e9culo XXI), se estende para al\u00e9m de quest\u00f5es de g\u00eanero. A inviolabilidade do corpo feminino \u00e9 um marco fundamental para o entendimento de que o Estado (n\u00e3o macho) deve o mesmo respeito a todos, e que a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade democr\u00e1tica passa pela percep\u00e7\u00e3o da igualdade nas diferen\u00e7as.<br \/>\nRetomando o di\u00e1logo motivador deste texto, n\u00e3o \u00e9 direito de homem algum infringir \u201cmis\u00e9rias\u201d \u00e0 mulher ou a quem quer que seja. O corpo feminino n\u00e3o est\u00e1 disposto \u00e0 viola\u00e7\u00e3o inconsentida, assim como o povo deste pa\u00eds n\u00e3o deve estar exposto \u00e0s estocadas a ele deferidas sob o pretexto de um bem maior. Em ambos os casos, corpos e vidas s\u00e3o invadidas, e os resultados desta \u201crela\u00e7\u00e3o\u201d apontam sempre para um gozo unilateral e expl\u00edcito, mas muitas vezes distante da percep\u00e7\u00e3o geral de suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>*Carlos Nascimento \u00e9 Bacharel em Administra\u00e7\u00e3o e Mestre em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carlos Nascimento &#8211; Quando aguardava pelo nascimento de minha primeira filha, um amigo, pai de uma rec\u00e9m-nascida, perguntou: \u201cE a\u00ed? \u00c9 homem ou mulher?\u201d. Respondi que seria uma menina e, de imediato, recebi um tapa nas costas acompanhado de uma profecia em tom jocoso: \u201cPois \u00e9. 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