{"id":92053,"date":"2020-05-30T22:16:30","date_gmt":"2020-05-31T01:16:30","guid":{"rendered":"http:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=92053"},"modified":"2020-05-30T22:16:30","modified_gmt":"2020-05-31T01:16:30","slug":"autocritica-o-metro-de-paris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blitzconquista.com.br\/?p=92053","title":{"rendered":"Autocr\u00edtica (O metr\u00f4 de Paris)"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Carlos Nascimento<\/em><\/p>\n<div class=\"separator\"><a href=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-sNjHaTDYk64\/XryQGxq5vFI\/AAAAAAAAXXc\/3zS7HkjOHIg4b33rpKpbSNvSe5O7hfS2gCLcBGAsYHQ\/s1600\/IMG_20190625_124359%2B1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-sNjHaTDYk64\/XryQGxq5vFI\/AAAAAAAAXXc\/3zS7HkjOHIg4b33rpKpbSNvSe5O7hfS2gCLcBGAsYHQ\/s320\/IMG_20190625_124359%2B1.jpg\" width=\"240\" height=\"320\" border=\"0\" data-original-height=\"1600\" data-original-width=\"1200\" \/><\/a><\/div>\n<p>Ver\u00e3o em Paris. Dentro de um vag\u00e3o de metr\u00f4 lotado e sob um calor dos infernos, observo a entrada de uma mulher que traz pela m\u00e3o um garoto de cerca de dez anos. Ela o acomoda num raro assento que vaga, e ele, como uma crian\u00e7a desses tempos, n\u00e3o se dispersa do <em>game<\/em> que tilinta em seu <em>smatphone<\/em>. Como m\u00e3e atenta que parece ser, reclama coisas com o filho, mas tamb\u00e9m lhe acaricia, lhe d\u00e1 amor. Tudo normal no metr\u00f4 de Paris, da Paris dos franceses. Ela branca, cabelo loiro, escorrido, quase incolor. Ele preto, cabelo <em>rastafari<\/em>, t\u00eanis e cal\u00e7a jeans. E eu, atento ao normal que me incomoda.<\/p>\n<p>Longe de casa, no aperto do trem, estou sozinho a fitar aquela cena que n\u00e3o me compete. Distante de meu h\u00e1bito, me pego a estranhar algo com o qual sequer deveria estar a me deter. Um \u201cqualquer coisa\u201d que n\u00e3o importa, mas que naquele momento &#8211; naquela cidade &#8211; me afronta, por mais indesej\u00e1vel que seja admitir esse fato.<\/p>\n<p>Afora a Torre, o Museu, o Arco e as vitrines, se misturam ali africanos, hindus, asi\u00e1ticos, \u00e1rabes, latinos e outros tantos de origem incerta. Uma infinidade de etnias que, quando n\u00e3o turistas, habitam aquela fascinante Babel. Espanto certo para visitantes que esperam ali encontrar <em>Bardots<\/em> e <em>Delons<\/em> a cada esquina, charmosamente sentados a fumar ou a comer <em>croissants<\/em> em seus caf\u00e9s.<\/p>\n<p>Mas afinal, n\u00e3o \u00e9 isso que me surpreende. A mulher branca e o menino negro no metr\u00f4, na hora do <em>rush<\/em>. Figuras comuns, corriqueiras, cotidianas. Este desconforto que n\u00e3o quero sentir no olhar. Impr\u00f3prio para um brasileiro. Para um baiano que tanto ama, declama e valoriza suas origens e sua cultura.<\/p>\n<p>Seria necess\u00e1rio ir a um lugar t\u00e3o distante para me defrontar com um preconceito t\u00e3o latente? Como posso eu, vindo de onde venho, me prender a observar a policromia daquela rela\u00e7\u00e3o? Como posso sustentar qualquer pensamento ou discurso humanista, se ainda me apreendo a este tipo de cena? Rid\u00edculo me sinto. \u00c9 s\u00f3 uma m\u00e3e com seu filho! Nada mais deveria importar.<\/p>\n<p>Mesmo que possa haver alguma severidade em meus questionamentos, me pergunto at\u00e9 que ponto tenho estas dissocia\u00e7\u00f5es bem resolvidas em mim. Ser\u00e1 que l\u00e1, ao final de tudo, no fim da fila, consigo mesmo me desvincular de todo tipo de preconceito?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a do metr\u00f4 me obriga a responder que n\u00e3o. Apesar de militar nesse campo, preciso reconhecer em meu \u00edntimo que seria bastante dif\u00edcil abandonar muitos dos confortos que esta sociedade patriarcal me proporciona. Confortos sobretudo comportamentais: despreocupa\u00e7\u00f5es de aceita\u00e7\u00e3o, de est\u00e9tica, de linguajar ou de ordem familiar. Coisas pequenas, naturalizadas ao ponto da impercep\u00e7\u00e3o geral, mesmo para os que s\u00e3o costumeiramente prejudicados por estas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-oU-6K9KP2kk\/XryPcL5XEII\/AAAAAAAAXXU\/g70ZhDb1a2crS61aHiy8aGVRLXksYXsewCLcBGAsYHQ\/s1600\/IMG_20190623_223110%2B1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-oU-6K9KP2kk\/XryPcL5XEII\/AAAAAAAAXXU\/g70ZhDb1a2crS61aHiy8aGVRLXksYXsewCLcBGAsYHQ\/s320\/IMG_20190623_223110%2B1.jpg\" width=\"200\" height=\"320\" border=\"0\" data-original-height=\"1600\" data-original-width=\"1004\" \/><\/a><\/p>\n<p>Minha gera\u00e7\u00e3o foi criada sabendo que homossexuais eram pessoas desajustadas e sem-vergonha, merecedoras de zombarias e desprezo. Que, desde a princesa Isabel, este era um Brasil sem preconceitos de ra\u00e7a e que, na verdade, se ainda havia algum racismo, estava nos pr\u00f3prios negros que tinham dificuldades em se aceitar neste pa\u00eds de iguais. Que Jesus era um homem branco, de olhos azuis e madeixas lisas, dignas de uma campanha de shampoo Colorama. Tamb\u00e9m que pedintes eram pessoas perigosas e queriam dinheiro para tomar cacha\u00e7a ou fumar maconha. E que mulheres que exerciam sua sexualidade de forma pouco condizente com a retid\u00e3o moral carregavam a pecha de galinhas, ou coisa que se assemelhe.<\/p>\n<p>Era comum ouvir de meus av\u00f4s e av\u00f3s &#8211; nem t\u00e3o brancos &#8211; frases como: \u201cEsse menino Gil \u00e9 um preto bom\u201d, \u201cN\u00e3o namore gente de cor. \u00c9 preciso limpar a fam\u00edlia\u201d ou \u201cUma mulher n\u00e3o \u00e9 nada sem um homem\u201d. N\u00e3o que isso enseje culpa na minha forma\u00e7\u00e3o ou na dos meus ascendentes, educados todos conforme verdades forjadas ao longo de s\u00e9culos de domina\u00e7\u00f5es que se perpetuam. Ali\u00e1s, importa lembrar que muitas destas express\u00f5es, disfar\u00e7adas sob novas roupagens, tem voltado \u00e0 tona como se representassem certezas que se encontravam adormecidas sob o manto da busca pela equidade e do equil\u00edbrio social, foco de movimentos e esfor\u00e7os diversos ao longo de muitas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Embora a maturidade e a ci\u00eancia de mundo me tenham afastado de ideias como estas, evitando, por exemplo, que as tenham repassado a educa\u00e7\u00e3o de minhas filhas, o metr\u00f4 de Paris me faz lembrar que algumas dessas percep\u00e7\u00f5es dificilmente se desprender\u00e3o do meu ser, ainda que muito me esforce para me desfazer desta nociva e involunt\u00e1ria mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Fatos como esses refor\u00e7am minha convic\u00e7\u00e3o de que, por mais que inquieta\u00e7\u00f5es me aproximem de demandas que n\u00e3o me s\u00e3o pr\u00f3prias por origem, meu lugar de fala me ilegitima este direito de forma plena. Acompanhando as coloca\u00e7\u00f5es da escritora Djamila Ribeiro<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, o reclame do espa\u00e7o e da representatividade das minorias sociais deve, em ess\u00eancia, partir destas: detentoras da insubstitu\u00edvel viv\u00eancia e das heran\u00e7as que lastreiam o seu reconhecimento como sujeitos pol\u00edticos. Contudo, a contribui\u00e7\u00e3o de pessoas distantes destas realidades se faz importante, pela possibilidade destas mesmas poderem levar essas reflex\u00f5es a espa\u00e7os onde estas minorias n\u00e3o conseguem se fazer representar.<\/p>\n<p>Conforme observa Jaqueline Concei\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, um dos maiores obst\u00e1culos a ser vencido \u00e9 o fato de que as sociedades americanas permanecem a reproduzir modelos baseados na preval\u00eancia do colonizador europeu como ideal a ser atingido. Este objeto de realiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 inserido nas mais diversas formas de forma\u00e7\u00e3o do pensamento ocidental. O homem branco representa &#8211; de forma consciente ou n\u00e3o &#8211; o lugar onde se quer chegar, seja pela mulher que se emancipa ou pelo negro que se descola de sua condi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria. O referencial, de uma forma ou de outra, tende a ser este personagem que se espera reproduzir ou agradar.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-3pt7sR0_bG4\/XryQ5rGbA7I\/AAAAAAAAXXo\/Qs2Do0qM2qY4BWAGfTdTi66hh77QNuc_ACLcBGAsYHQ\/s1600\/IMG_20190624_194850%2B1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-3pt7sR0_bG4\/XryQ5rGbA7I\/AAAAAAAAXXo\/Qs2Do0qM2qY4BWAGfTdTi66hh77QNuc_ACLcBGAsYHQ\/s320\/IMG_20190624_194850%2B1.jpg\" width=\"212\" height=\"320\" border=\"0\" data-original-height=\"1600\" data-original-width=\"1068\" \/><\/a><\/p>\n<p>Dentro deste contexto, me colocar a questionar e a defender temas que possam parecer long\u00ednquos de meu fen\u00f3tipo ou de minha realidade imediata, remete ao fato de que penso que n\u00e3o h\u00e1 ser humano completo quando limitado a sua condi\u00e7\u00e3o individual. Que os flagelos ou as alegrias de muitas pessoas inevitavelmente ecoam &#8211; por bem ou por mal &#8211; na qualidade de vida de todos, mesmo dos que se entendem como mais isolados e protegidos em sua condi\u00e7\u00e3o abastada.<\/p>\n<p>P\u00f4r em xeque minha postura em rela\u00e7\u00e3o a estas realidades me coloca a pensar que, assim como em meu caso, muita de nossa no\u00e7\u00e3o de coletividade esbarra no reconhecimento efetivo das igualdades inatas a todos. Entendo que muitas das m\u00e1scaras que a sociedade contempor\u00e2nea disp\u00f5e, permanecem a proteger pessoas de fatos que realmente n\u00e3o desejam enxergar. S\u00e3o lentes que mant\u00e9m o mundo sob o <em>Ray-ban<\/em> de uma tranquilidade constru\u00edda, idealizada para o bem dos que menos sofrem com as cruezas do Sol. Uma das reflex\u00f5es que Jos\u00e9 Saramago provoca no livro <em>Ensaio sobre a cegueira<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><em>. <\/em>Fica a pergunta: seria necess\u00e1rio passar por um apagamento como o proposto pelo escritor para nos enxergarmos nus e nos reconhecermos como iguais?<\/p>\n<p>Por ora agrade\u00e7o \u00e0 mo\u00e7a e ao garoto do metr\u00f4, que, embora n\u00e3o tenham percebido o meu desconforto com sua simples felicidade, me ajudaram a entender que ainda tenho uma longa jornada por cumprir na desconstru\u00e7\u00e3o de arqu\u00e9tipos que muitas vezes sequer reconhe\u00e7o valorizar, mas que invariavelmente interferem na minha rela\u00e7\u00e3o com este mundo plural.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> RIBEIRO, Djamila.\u00a0<strong>Lugar de fala<\/strong>. P\u00f3len Produ\u00e7\u00e3o Editorial LTDA, 2019.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Doutoranda em Antropologia Social pela UFSC (2019) e Mestre em Educa\u00e7\u00e3o: Hist\u00f3ria Pol\u00edtica e Sociedade (2014) pela PUC-SP.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> SARAMAGO, Jos\u00e9.\u00a0<strong>Ensaio sobre a cegueira<\/strong>. Editora Companhia das Letras, 1995.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carlos Nascimento Ver\u00e3o em Paris. Dentro de um vag\u00e3o de metr\u00f4 lotado e sob um calor dos infernos, observo a entrada de uma mulher que traz pela m\u00e3o um garoto de cerca de dez anos. 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